29 de Abril de 2011 ♥

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Dia 1, sem ti.

Pela primeira vez fui visitar-te. Percorri um longo corredor branco, silencioso e sem qualquer movimento. Ouvi apenas o eco dos meus passos e senti a ansiedade percorrer-me a pele. Avistei, lá ao fundo uma gigante porta blindada, com um sítio onde era digitado um código que dava acesso à ala. Por cima, estava uma gigante placa com letras a vermelho a dizer "PSIQUIATRIA" de uma forma tão assustadora que era possível, ao ler essa mesma placa, ter inúmeras imaginações e suposições de como tudo seria, lá dentro. Depois te ter tocado a uma pequena campainha, uma senhora recebeu-me.
Ao entrar, os meus olhos fixaram os desenhos nas paredes e as mensagens que encorajavam o desfrutar da vida que estavam escritas em cartazes. À minha volta, eram muitos os olhares que me miravam, muitos deles quase sem saber bem como abrir os próprios olhos. Todos os doentes eram o protótipo de uma pessoa com sono, cheia de olheiras, farta de estar ali e completamente desesperada, desejando antes a morte àquele inferno. Ouvi o teu nome a ser pronunciado pela enfermeira, ao fundo de um grande corredor. Olhei impacientemente por todas as entranhas daquele corredor, até que tu saíste de um quarto, lá ao fundo e vieste desorientado na minha direcção. Vinhas a sorrir e a andar apressadamente. Vestias roupa de hospital e estavas com um ar cansado, mas mesmo assim, sorriste. Até que chegaste ao pé de nós e abraçaste-nos, sorriste e disseste "Olá!". Nesse preciso momento, um bilião de lágrimas estavam prestes a explodir e a derramar na minha face, como se fossem gotas de água numa tempestade de inverno rigoroso. Sentámo-nos numa mesa e começámos a falar. Estavas tão ansioso de sair dali que quase me convenceste a tentar tirar-te dali. Falaste-nos das outras pessoas que ali estavam e do quão doentes elas estavam. Contaste-nos a tua rotina: acordar, comer, não fazer nada, almoçar, não fazer nada e não conseguir ter uma conversa lúcida com ninguém, comer, dormir. Algo que me traumatizou e deixou com revolta dentro de mim. Estava-me a custar estar ali, à tua frente, a falar contigo como se nada fosse, tentando demonstrar-te que estava a lutar contra mim mesma para não chorar e que ia ficar tudo bem. Sorri para ti e tu retribuíste com um sorriso cansado, alheio, desesperado e vazio. "Tens de sair daqui pai, isto não é sítio para ninguém, muito menos para ti, vais enlouquecer." (...) "Eu sei filha, mas por enquanto vou ter de me habituar a isto." A visita acabou e tu estavas triste, desolado, a desejar incansavelmente o dia seguinte, aquele em que nos irias poder ver de novo. Abraçaste-nos aos dois com força, tentando controlar as lágrimas e disseste "Vá, até manhã filhos, fiquem bem e durmam bem." (...) "Vai correr tudo bem pai, sê forte... e promete-me que vais comer dois pratos de cada refeição!" A piada ecoou e deu fim àquele encontro. Esperaste que nós saíssemos, a nosso lado e não te sentaste enquanto não nos viste do outro lado, nos braços da nossa mãe. Não olhei para trás, não queria. Não queria relembrar que por detrás daquela porta blindada estavas tu, tentando sobreviver àquele inferno. Percorri todos os corredores, até chegar à saída. Uma revolta imensa foi originada em mim. Um aperto tão grande que quase me levava a parar e a correr, na direcção contrária da saída. As minhas mãos tremiam e os meus olhos fitavam o chão. Estava constantemente a relembrar todo aquele ambiente, todo aquele sofrimento. Chegámos a casa, sem qualquer tipo de alegria no rosto. Tentámos conviver, mas todos os olhares estavam cruzados e todos demonstravam a dor da sua ausência. É o meu pai, e eu não consigo vê-lo assim. Não consigo suportar esta impotência em relação ao seu estado. Não consigo suportar estar longe dele. É demais.